Livro Caaopora de Ana Carolina Mayres conta a história da Cantareira

livro_caapora.jpgTantos foram os ciclos econômicos do Brasil com as colonizações espaço-culturais que o país sofreu, mas com uma característica única: a apropriação da natureza e dos saberes das comunidades tradicionais. Ouro, Pau-Brasil, Cana de Açúcar, Borracha.
Caapora é representa uma entidade de proteção às florestas, da qual o próprio nome designa, Habitante do Mato (caa- mato e pora- habitante). O chamamento para as relações entre a Região Metropolitana de São Paulo e o Parque Estadual da Cantareira (PEC) situa-se no questionamento dessa cultura que relaciona qualidade de vida e natureza. Não mais queremos morar perto da cidade e de toda praticidade que essa escolha pode nos trazer. Queremos qualidade de vida, um local tranqüilo e verde para que nossos filhos possam crescer saudáveis.
A escolha do tema percorreu caminhos pouco visitados na historiografia brasileira, em especial a paulistana. Foi o primeiro mestrado no Programa de História da PUC-SP que abordou a problemática socioambiental e propôs uma metodologia de trabalho nova, pincelada pela transdisciplinaridade que os temas ambientais requerem.
A dinâmica socioambiental da Serra da Cantareira é bastante complexa. É composta por realidades sociais distintas, usos e ocupações de solo múltiplos, gestões de governos diversos, população com níveis de renda variados. No meio desta dinâmica situa-se o Parque Estadual da Cantareira. O Parque é a maior parte da Serra, mas não corresponde a toda ela. Por ser um Parque Estadual metropolitano dialoga com os quatro municípios de seu perímetro: São Paulo, Caieiras, Guarulhos e Mairiporã. Mas esta relação não é tão harmoniosa como pode parecer, pois cada cidade tem sua própria dinâmica e seu plano de governo. A criação de um Conselho Gestor foi a saída encontrada para a discussão das problemáticas da Unidade de Conservação e seu entorno. Além disso, oficinas para a revisão do seu Plano de Manejo estão acontecendo ao longo deste ano, com o intento de abertura de um espaço democrático e de construção de políticas públicas para a Unidade de Conservação.
A percepção da realidade do entorno do PEC é fundamental para a conservação apropriada da Unidade, já que a dinâmica socioambiental vizinha interage constantemente com a complexidade do ecossistema.
O que percebemos é que “do lado de cima”, condomínios de alto padrão e chácaras residenciais crescem nos municípios de Mairiporã e Caieiras, enquanto “do lado de baixo”, casas auto construídas e bairros mais pobres sobem a serra desafiando o relevo da montanha. No entanto, os dois cenários, apesar de bastante distintos, representam um grande risco a integridade da floresta.
Leis compensatórias tentam amenizar a pressão do crescimento das cidades da serra. Com isso, o Parque cresceu de tamanho desde sua criação. Contudo, não podemos classificar este fato como um exemplo de sucesso, pois as áreas agregadas à Unidade de Conservação na maioria das vezes estão degradadas e precisam passar por processos de recuperação.
É preciso pensar em possibilidades de conservação que contenham o avanço predatório das cidades em direção ao Parque Estadual da Cantareira, como a criação de zonas de amortecimento. Algumas ações estão sendo iniciadas como o Parque Senna e os Parques Lineares. O que percebemos, porém, é que o avanço das cidades é mais rápido do que a implantação dessas iniciativas públicas e privadas e as leis compensatórias refletem uma realidade quase imediata, por conta da sua rapidez burocrática.
As cidades crescem, mas presenteiam o Parque da Cantareira. Mesmo que este seja um presente de grego.


Ana Carolina M. Ayres; Facilitadora  de  Rede  de Cooperação  da Cantareira. Historiadora e Mestre em História Social com ênfase em História Ambiental pela PUC-SP. Membro do Núcleo de Estudos Ambientais ECOS da PUC-SP/CNPq e atuante do Movimento Nossa São Paulo. Gestora de projetos socioambientais da região metropolitana e Educadora ambiental acaba de lançar o livro “O ciclo da Caapora: a RMSP e o Parque Estadual da Cantareira” pela editora Annablume.