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Loteamentos, favelas e estabelecimentos comerciais destrõem mata nativa e poluem mananciais

 Desde o final do século passado, o projeto de construção do trecho Norte do Rodoanel Mário Covas tornou-se o inimigo nº 1 dos movimentos ambientalistas de São Paulo. A execução da obra, de acordo com os preservacionistas, representaria um golpe mortal na Serra da Cantareira, a maior floresta urbana do mundo, com 7.900 hectares – o equivalente a 44 Parques do Ibirapuera, ou a 2,4 Florestas da Tijuca. Devido às pressões, o governo paulista recuou no intento de levar adiante a empreitada, cujo desfecho permanece uma incógnita. Mas uma coisa é certa, cristalina: a degradação da Cantareira – uma das últimas grandes áreas de Mata Atlântica no Estado – segue a passos largos, à luz do dia. Nem por isso, contudo, são ouvidos clamores ou protestos dignos de nota.

Responsável por cerca de 55% da água consumida na Grande São Paulo, a Cantareira – que abrange, além da Capital, os municípios de Mairiporã, Caieiras e Guarulhos – é a principal área do Cinturão Verde de São Paulo, reconhecido pela Unesco, em 1993, como Reserva da Biosfera. Sua mata contribui de maneira decisiva para a estabilização do clima na região metropolitana, impedindo o avanço de ondas de calor do centro da área urbana para os bairros e municípios periféricos. A água e o frescor, contudo, estão sob séria e crescente ameaça.
Segundo o Atlas Ambiental do Município de São Paulo, em quatro dos 10 distritos com maiores índices de devastação florestal no período entre 1991 e 2000 – Tremembé (407,61 hectares), Perus (345,60), Anhangüera (317,70) e Jaraguá (255,51) –, a mancha urbana já se aproxima “perigosamente” dos parques da Serra da Cantareira, Anhangüera e Jaraguá. A situação mais grave é a da região da Cantareira, que ao longo dos anos 1990 foi invadida por 143 loteamentos clandestinos, os quais devastaram cerca de 10 milhões de m2, conforme estudo realizado pela Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente, em 2000.

As favelas também arrancaram um naco considerável do verde da serra. Das 327 situadas na Zona Norte da Capital, a maioria está localizada em terrenos íngremes, antes ocupados por mata nativa, de acordo com o Atlas Ambiental do Município de São Paulo. Essa ocupação desordenada e predatória traz sérios riscos a essas próprias comunidades – permanentemente ameaçadas por  deslizamentos de terra – e à maioria da população da Grande São Paulo, pois a inexistência de esgotos nas favelas é sinônimo de contaminação de mananciais.

Os moradores mais carentes, contudo, estão longe de ser a única ameaça à vegetação e à saúde pública na região. Diversos estabelecimentos comerciais na Serra da Cantareira devastam a mata e operam sem sistemas de esgoto ou fossas assépticas. Um exemplo é o restaurante Cabana da Serra, no quilômetro 8 da estrada da Roseira, em Mairiporã. O cenário no local é desolador. Ao redor do Cabana, pilhas de troncos mostram que o desmatamento não tem limite. Pior: a gordura e o lixo do restaurante, além de fezes e urina de cavalos e de moradores de um casebre ao lado do estabelecimento, são jogados em um córrego. Algumas centenas de metros adiante, a água é utilizada por diversas famílias.

Soluções definitivas para essas mazelas não faltam – pelo menos no papel. Em julho de 2005, por exemplo, a Prefeitura de São Paulo e o governo do Estado criaram o Grupo Executivo de Proteção aos Mananciais, com o objetivo de fiscalizar as bacias Guarapiranga, Billings, Capivari-Monos e Alta Cantareira. O Executivo paulistano anunciou à época que estava “empenhado” em contratar 200 guardas civis especializados em meio ambiente e em requisitar 200 policiais militares ao Palácio dos Bandeirantes, para formar uma “linha verde” de proteção à Serra da Cantareira, com 20 quilômetros de extensão. Retóricas à parte, a degradação ambiental prossegue na região.