Triplicam denuncias de tráfico de animais silvestres

São Paulo lidera tráfico de animais

Em 2008 triplicou o número de denúncias feitas para indicar casos de tráfico de animais silvestres no Alto Tietê. A notícia é boa por um lado, pois mostra que a comunidade está mais consciente com relação à ilegalidade da prática, mas por outro evidencia que este tipo de comércio não pára de crescer. Segundo dados da organização socioambientalista Bio-Bras, de todos os animais vendidos ilegalmente no Estado de São Paulo, 30% são capturados nas matas da Região. Com isso, ela se torna líder no ranking estadual e a terceira colocada em todo o Brasil. Além disso, o trabalho da Polícia Militar Ambiental, responsável pelo atendimento das ocorrências, captura dos autores do crime e posterior encaminhamento dos animais aos locais ideais dobrou desde 2005.

O comércio ilegal praticado no Alto Tietê tem muitas frentes, mas em geral a maior parte das denúncias é relativa a manutenção de cativeiros. Isto é, pessoas que possuem animais silvestres em casa como se eles fossem bichos de estimação quaisquer. Há também lojas que vendem animais legalizados, como pet shops, mas que dependendo da encomenda compram e revendem espécies silvestres. O lado mais preocupante, contudo, é o do crime organizado, que a cada dia está mais bem estruturado, envolve exportação e até uma potencial participação da máfia russa.

Neste último caso, a Região se torna um prato cheio devido a sua logística. Isto é, ela está no eixo Rio de Janeiro - São Paulo e como agente facilitador há a proximidade com o aeroporto internacional de Guarulhos. De acordo com a presidente da Bio-Bras, Nadja Soares de Moraes, o tráfico em Mogi e cidades vizinhas envolve muitas vezes animais trazidos de outras regiões do País. Da Mata Atlântica local as espécies mais visadas são as aves canoras e os saguis. "Araras, papagaios e macaquinhos-prego, por exemplo, são animais que normalmente vêm da Mata Atlântica da Bahia, de Minas Gerais. E muita gente aqui em Mogi tem esses bichos", informa.

Outro problema, mais conhecido como tráfico científico, é a venda ilegal de aranhas, cobras e outras espécies peçonhentas para extração de veneno. Esta prática, que tem fins de exportação, também acontece bastante na Região.

Manter um animal silvestre em casa, alerta Nadja, é prejudicial não só para o bicho como para o próprio ser humano. Primeiramente há a questão da readaptação, ou seja, ele está habituado à mata e precisa se acostumar com um ambiente caseiro. Dentro deste âmbito entram vários problemas, como o da alimentação, que dificilmente é feita com base nos grãos para a espécie correta, até porque é difícil encontrar o alimento ideal em estabelecimentos comerciais. Há também o percalço do estresse sofrido pelo animal, que o leva muitas vezes a transtornos comportamentais, como agressividade e realização de gestos obscenos. E a conseqüência disso é que muitos passam a rejeitar o bicho e o abandonam no mato de forma irresponsável.

pacacaio.JPGAlém disso, há o problema sanitário, porque um animal da mata convive com bactérias, vírus e fungos típicos de seu habitat natural. A partir do momento em que ele está em contato direto com seres humanos, esses organismos podem infectar as pessoas. "São vários tipos de viroses que podem até levar a morte", diz Nadja, lembrando ainda que, quando preso, o bicho dificilmente conseguirá se reproduzir e participar como deveria do ecossistema. Tudo isso leva ainda à severa redução da biodiversidade, processo este que só aumenta com o passar dos anos. "Hoje temos uma lista imensa de espécies que estão desaparecendo. Primeiro devido a própria devastação das florestas, que deixa os animais sem lar, e segundo justamente por causa do tráfico".

Um detalhe muito importante e constantemente esquecido em meio a todo esse processo é a crueldade praticada com os animais, que pode acontecer acidentalmente durante o transporte ou propositalmente para domar os bichos. "É um sistema muito cruel. A Rede contra o Tráfico de Animais Silvestres tem uma pesquisa que mostra que de cada dez animais retirados da mata para este fim, apenas um sobrevive. Eles trazem esses bichinhos presos em caixinhas, amarrados, pintam, arrancam a língua, furam o olho para que ele fique dócil e pareça bonitinho. É um mercado extremamente prejudicial".


Fonte: Diário Online - Lívia de Sá - 13/04/2009